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Onde a guitarra entrou na sua vida? Quais foram suas principais influências? Em 1978 após ter assistido um programa na TV Bandeirantes sobre a vida de Jimi Hendrix. Ai depois eu ouvi o disco Live in Concert Monterey, fiquei pirado e determinado a tocar guitarra. Fui atrás de uma e quando consegui vi que não era tão fácil e simples assim. Tive aulas em algumas escolas e treinava tirando muitas coisas de ouvido, ai descobri o Mozart Mello aqui perto de casa e com ele foram três anos de aulas todas semanas. Depois desse bom início musical resolvi abrir o leque e ouvir e estudar todo tipo de música: jazz, blues, anos 70, punk rock, funk, erudita, etc... Tive aulas de piano, violino, arranjo, percepção, contraponto, composição, violão, entre outras coisas. Eu tinha muita informação de música, mas não sabia como usar na guitarra, vendi tudo que tinha e em 1996 fui para Los Angeles estudar no GIT, foi um ano de muito sofrimento na mão do Scott Henderson, Joe diorio, Carl Schoroeder, entre muitos outros. Minhas influências são as mais diversas, acho que todo estilo musical tem seus grandes valores e é isso que gosto de ouvir. Por exemplo, o tango tem o Piazolla, o baião o Luis Gonzaga, forró tem o Dominguinhos, Jazz tem o Coltrane, rock tem Jimi Hendrix, contemporânea tem o Stravinsky, indiana com o Ravi Shanker e por ai afora. Eu estou sempre de ouvidos abertos a todo tipo de som e procuro criar minha síntese de tudo. Ouvir música é como se alimentar, às vezes é preciso comer algo nem tão gostoso no primeiro momento, mas muito nutritivo ao seu corpo depois de um tempo.
Você estudou diversos instrumentos alem de guitarra, por que a guitarra ficou como seu instrumento "principal"? A guitarra foi por onde tudo começou na minha vida de músico e é o instrumento que mais tenho expressão. Não me considero um virtuose do instrumento e nem tenho algum interesse nisso. Meu objetivo é fazer uma boa música, ser criativo e original, algo muito raro de acontecer. O genial Zawinul é um bom exemplo do que quero dizer, os trabalhos dele são sempre diferentes e tem um caráter inigualável. Tem ainda o Zappa, Hendrix, Jeff Beck, McLaughlin, Scofield, Miles Davis entre muitos outros. Ter personalidade é tudo, o maior virtuosismo possível para qualquer tipo de músico.Em meus dois trabalhos solo “O Sonho dos Peixes” e “Entre Cores e Sons” minhas idéias e composições podem ser resumidas num triangulo entre ritmos brasileiros delineados com timbres de guitarra rock sobre harmonias de jazz.
Comente sobre como foi estudar no GIT? Foi uma experiência muito legal, morar em outro país, falar uma outra língua e acima de tudo estar perto de grandes músicos. Os EUA são a terra da guitarra tal como o Brasil é a terra do futebol, pena não ter nascido para ser jogador aqui ou guitarrista nos EUA. O guitarrista americano transita pelo mundo tal como o jogador brasileiro pelos clubes estrangeiros. Apesar de termos um número grande de bons músicos no Brasil a profissão ainda é discriminada por todos lados: donos de bares, de escolas, grande mídia, etc... Por isso os nossos salários são tão baixos. No GIT em 1 ano de aulas tive oportunidade de ver e ouvir músicos de diferentes partes do mundo tocando os mesmos temas que eu, foi muito legal e uma grande troca de informações musicais e de cultura. As escolas brasileiras já melhoraram muito, mas ainda não dá para se comparar com escolas no EUA, lá os alunos ficam tocando em situações reais como num palco a maior parte do tempo, enquanto que no Brasil as aulas são mais teóricas e dá pouca ênfase ao assunto. Outro detalhe importante é a proximidade que as escolas americanas fazem com nossos ídolos, semanalmente dão ingressos de shows e workshops, conseguem grandes descontos nas lojas de instrumentos e de livros aos alunos, isso tudo é motivador. Meu maior aprendizado foi conhecer de perto a vida do povo americano, as pessoas são muito objetivas, trabalham muito, ninguém fica fazendo “panelinhas” ou se metendo na vida dos outros, imaginem o reflexo disso tudo na vida do musico, você acaba estudando e produzindo muito mais.
Como é produzir peças teatrais, no que ajudou isso em seu desenvolvimento como músico e guitarrista? Foi uma experiência incrível, pois mais do que pensar em virtuosismo de um ou determinado instrumento, você precisa pensar na música como um todo e ainda mais servindo de apoio aos atores que encenarão no palco. Para criar e melhorar minhas trilhas tive que estudar orquestração, arranjo, composição, contraponto, teclados, programar seqüenciadores, aprender a gravar, mixar, editar, etc... A guitarra como líder não é dos que mais se usa em trilhas teatrais, é sempre diluída no arranjo. Para se ter sucesso ao fazer trilhas é preciso antes de tudo saber criar climas coerentes com as imagens ou cena em questão, em muitas vezes coisas simples como apenas uma harmonia de piano e uma melodia num oboé. É preciso assistir algumas vezes ao mesmo filme ou a peça de teatro para observar com detalhes a música usada, isso é um grande exercício e estudo.
Muitos projetos, ainda sobre tempo pra dar uma "estudadinha", como mantém sua rotina de estudos? Hoje o meu maior estudo se resume a tocar com outros músicos em bares, ensaios e gravações. O maior professor que existe é o palco, lá é a hora que as coisas acontecem e não dá pra mentir ou enganar, há somente uma chance. Gostaria muito de estar tocando todos os dias em situações dignas (com um bom cachet e uma boa refeição), mas são poucos locais que isso ocorre, para manter a pratica e os dedos em dia procuro sempre praticar pelo menos entre 1 ou 2 horas por dia. O importante não é somente a quantidade de horas, mas sim a qualidade dos estudos. Procure achar sempre novos exercícios e aprenda a tocar musicas que você não conheça, ler partituras de outros instrumentos tais como sax e violino, estude muita rítmica, faça transcrições de temas e solos e ainda depois faça uma analise total. Lembre-se às vezes praticar 8 horas por dia um mesmo exercício pode não estar lhe trazendo tanto aprendizado assim. A diversidade é o mais importante, também vale a pena lembrar que incorporar arte na sua vida é fundamental para fazer música de melhor qualidade, vá ao teatro, biblioteca, museus, cinema, etc...
Conte-nos um pouco sobre seu projeto chamado Guitarras Paulistanas. A idéia surgiu quando recebi um convite para um show no Bourbon Street, a oportunidade era muito boa e resolvi convidar mais dois colegas (Djalma Lima e Edu Letti) e assim fazer uma grande festa lançando um projeto lá. O objetivo principal do Guitarras Paulistanas é o de mostrar a música instrumental dos guitarristas da capital de SP. Infelizmente o grande problema é o de que os patrocinadores do setor musical não têm interesse em dar apoio, o maior benefício seria dado a eles mesmos e as empresas de grande porte preferem projetos com musica mais popular. Com mais pessoas tocando haveria um maior consumo de produtos e evidentemente maior lucro as empresas, mas o empresário brasileiro sempre tem aquela meta de apenas querer ter lucro e gastar pouco e por ele próprio não consumir cultura acaba não acreditando nestas iniciativas. Durante um bom tempo o projeto teve apoio das cordas Elixir, eles me ajudaram e acreditaram no projeto realizando assim muitos encontros. Nos EUA é o oposto, basta observar o tanto que as empresas musicais gastam em catálogos, sites, vídeos, patrocínios, etc... e por isso faturam tanto. Eu também sou contra músicos tocarem por bilheteria ou sem cachet fixo, é um grande desrespeito a nossa classe, e no momento estou aguardando ter algum apoio e retomar atividades.
De uma dica para aqueles que ainda estão começando. Não pule etapas, aprender música é como fazer um bom vinho tem que haver paciência. Ouça sempre boa música e varie sempre, esse é o maior combustível. Aproveite as facilidades da net e navegue por vídeos e paginas de músicos, com um bom computer você pode descobrir coisas muito interessantes da música e cultura de muitos povos. Estude de tudo sempre: guitarra (ou seu instrumento principal), harmonia, rítmica, improvisação, leitura, percepção... Por mais abrangente e dedicado que você seja, música é uma profissão sem fim em que cada novo dia surge uma descoberta surpreendente para os seus ouvidos e para quem esteja lhe ouvindo. Boa sorte a todos.
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